sexta-feira, 19 de março de 2010

Xilogravura, fiz as pazes

Sempre tive um pouco de preconceito com a Xilogravura. Quando criança a gente é forçado a gostar de literatura de cordel principalmente porque é uma obra de arte menos favorecida, feita pelo sofrido nordestino que mesmo sem muitas condições e técnicas faz-se expressar. Parte verdade, perte sensacionalismo. Fato é, os desenhos não me chamavam a atenção, eram todos iguais e sem cor, em papéis estranhos e dependurados em um cordão!? E não é mágoa de cabolha. Também não gosto de bonecas do Jequitinhonha, das "namoradeiras" e de mangás. Acho tudo sem graça, igual, feio e chato. Opinião pessoal se é que me permitem.

O problema todo é que Xilogravura não é isso! e fui descobrir faz pouco tempo.

Fora toda a parte técnica da confecção da matriz (que por sinal sempre achei absurdo alguém em pleno século XXI se dar ao trabalho de escavar uma madeira sendo que existe tablet e photoshop), a Xilogravura me foi apresentada como uma arte rudimentar. E eu aceitei. Escavar madeira é algo bem rudimentar. Só não me dei conta de que nem todas as obras eram toscas.

Vejamos:
Por volta de 1830, Katsushika Hokusai, artista japonês, publicou A Grande Onda de Kanagawa.


Grande e inimaginável (para mim) xilogravura. Mais engraçado ainda é que temos referências contemporâneas dessa obra. O logo da marca de surf Quiksilver é inspirado na pintura da Grande Onda de Kanagawa (The Great Wave at Kanagawa), onde uma grande onda cobre uma montanha com o pico congelado. Veja:


Kitagawa Utamaro é outro artista japonês exponente no trabalho de gravuras conhecidas como Ukiyo-e, que nada mais é do que xilogravura. A diferença entre essas e as que estamos acostumados nos cordéis está no número maior de matrizes para gerar as diferentes cores e também no tipo de madeira, sem contar as diferenças de estilo dos desenhos.

matriz de Ukiyo-e
FlowersOfEdo, Utamaro

A escolha da madeira esteve no sucesso de muitos artistas. Thomas Bewick obteve seu distanciamento do comum juntamente por aliar sua capacidade como ilustrador à uma evolução da técnica. No final do século XVIII, a gravura em metal era a única forma de se conseguir reproduzir um desenho com alta definição. No entanto, transferência da gravura em madeira para o metal era um processo caro que exigia uma tecnologia adicional (modelagem em gesso e fundição que no final encareceria o produto). Nesse sentido a gravura feita diretamente no primeiro molde, a xilogravura, era bem mais rápida e não exigia um número muito grande de cópias para custear o produto final. Para obter a qualidade desejada em seus desenhos, Bewick resolveu trabalhar com madeiras mais duras e com o "buril", instrumento usado para gravura em metal e que dava uma maior definição ao traço.
Thomas Bewick. Barn Owl Tyto alba - History of British Birds (1847)

Como se sabe, com os avanços tecnológicos, a xilogravura foi deixando de ser um recurso de impressão para se tornar uma técnica artística.

O famoso norueguês, Edvard Munch (1863-1944)possui uma obra colossal como gravador em madeira. Ele mesmo imprimia suas gravuras.

Vampire II (1895-1902). Litogravura e xilogravura.

Edvard Munch. Anxiety. 1896. Woodcut. 45.7 x 37.5 cm. Munch Museum, Oslo, Norway.


The Kiss, coloured woodcut by Edvard Munch, 1902; in the Victoria and Albert Museum, London

No Brasil, as obras de Oswaldo Goeldi e de Fayga Ostrower (polonêsa mais que brasileira) são as minhas prediletas.


Céu vermelho, Oswaldo Goeldi, 1950. Xilogravura a cores


O solitário, Oswaldo Goeldi


Noturno, Oswaldo Goeldi


Casas - Xilogravura sobre papel, 1947. Fayga Ostrower.


9405 (1940) - Xilogravura em cores - papel de arroz, 70x45. Fayga Ostrower.


Xilogravura sobre papel, de 1958. Fayga Ostrower.


Existem muitos outros ótimos gravadores por aí. Dê uma pesquisada (se achar algo muito legal twitta pra gente!!!). Ano passado descobri que escavar madeira não é tão chato como parece. Pode ser até relaxante! E que xilografia não é uma arte nordestina, nem sertaneja, nem nada dessa baboseira que me disseram na 4ª série, rs. A seguir, minha desventura.